Se você já foi a um terapeuta, psicólogo, psicanalista, sabe. Geralmente, esses profissionais procuram buscar no passado as razões para os nossos problemas, medos e questões atuais. Mas, agora, imagine ir para um passado beeeem longínquo: uma outra vida. Sim, esta é a abordagem psicoterápica da TVP, a Terapia de Vidas Passadas. “A TVP está alicerçada na hipótese científica da reencarnação na tentativa de se explicar sintomas, neuras, medos, qualidades, defeitos, tendências, personalidade, caráter, enfim, o nosso jeito de ser que vem lá do passado, e dar respostas que a psiquiatria e a psicologia tradicionais não ofereceram por enquanto”, explica Flávio Braun, presidente da Sociedade Brasileira de Terapia de Vida Passada.
A regressão de memória é apenas uma parte do tratamento. De acordo com Flávio, primeiramente é realizada uma consulta médica normal, para ver o que o paciente gostaria de tratar. Depois são aplicados alguns testes psicológicos para se perceber questões de personalidade e fazer uma avaliação mais detalhada. Com estas informações, são elaboradas as fichas de indução para indicar o que se está buscando no passado. “Não fazemos hipnose. O paciente fica acordado e lúcido o tempo todo. A regressão é um instrumento de trabalho com a qual o paciente passa a tomar ciência do que precisa melhorar em si para se curar e ser mais feliz”, afirma Flávio. De acordo com ele, a psicoterapia dura, em média, seis meses.
Ficou curiosa? Então, esqueça. A TVP tem uma finalidade terapêutica. “O inconsciente não se abre por curiosidade. A terapia é realizada num processo de entendimento que leva ao reequilíbrio”, enfatiza ele. Por isso, cuidado ao se submeter a uma regressão - evite fazê-la em grupo e em público para exposição. Afinal, é um tratamento médico e psicológico.
Segundo o médico, todas as pessoas podem fazer TVP. As exceções são apenas crianças menores de 12 anos e mulheres grávidas, para não interferir no psiquismo fetal. Geralmente quem se submete ao tratamento acredita em reencarnação. “Quem não acredita fica com uma pulguinha atrás da orelha ou fica achando que tudo foi fantasioso ou memória genética ou inconsciente coletivo”, revela Flávio, que não se importa com o achismo, mas sim com a melhora dos sintomas apresentados pelo paciente.
Com a TVP é possível tratar medos, neuroses, problemas de temperamento, problemas de relacionamento pessoal, depressão, pânico, entre outras dificuldades. “Tentamos traduzir ao inconsciente o que ele precisa investigar do passado, tirando os rótulos da psiquiatria clássica”, completa Flávio.
A analista comercial Lúcia Borges, 45 anos, está em tratamento. Depois de várias abordagens terapêuticas, escolheu a TVP para tratar a síndrome do pânico que a acompanha há 13 anos. “Meu medo surgiu de repente, quando eu vi um afogamento na praia. Aquele momento foi um divisor de águas em minha vida. Saí correndo desesperada para a rua e me tranquei em casa por três meses. Tive altos e baixos, até que resolvi fazer a TVP. No início fui bem cética, porque não tinha tido resultados satisfatórios até então. Mas confesso que demorei a ‘entrar’ no tratamento. Agora começo a entender que o pânico não começou com o afogamento, mas muito antes”, revela Lúcia, que preferiu não entrar em detalhes sobre as razões da síndrome. “Ainda tenho que trabalhar melhor o assunto. A revelação foi muito forte”, justifica-se.
A Terapia de Vidas Passadas é cercada de polêmicas. Os que não acreditam em reencarnação apontam aí o grande problema do tratamento. Há quem acredite que se trate de uma mistura de informações do subconsciente, isto é, uma montagem de cenas, situações, feita pelo nosso cérebro - e que isso não condiz com um acontecimento real, verdadeiro na vida do paciente. E há ainda um grupo que até aceita o processo reencarnatório, mas que não acredita que se possa induzir a regressão a ponto específico. Flávio Braun aponta três fatores para tanta polêmica: falta de pesquisa e estudo, preconceito e o materialismo da ciência tradicional. “Tem uma frase famosa do (Albert) Einstein que diz que ‘o materialismo vai acabar por falta de matéria’. É a famosa descoberta do espírito!”, diz o médico.
Segundo Flávio, não é possível determinar em qual vida ou em qual momento específico se vai chegar. “É o inconsciente que traz as respostas”, diz ele. Tampouco se podem inventar situações. “Já existem na Associação Médica Espírita do Brasil, da qual faço parte, trabalhos de neuroimagem, mostrando quais regiões do cérebro que ficam ativadas durante a regressão. E o que foi comprovado foi que a área relacionada à criatividade não se ativa , mas a área das emoções e de memória sim”, afirma.
Flávio recomenda que o paciente procure profissionais preparados, que saibam conduzir as sessões. Ele garante que não há riscos. “A regressão não é uma sessão de tortura. O inconsciente somente vai deixar vir à tona o que o paciente precisa e sempre de uma maneira que ele suporte”. O ideal, é claro, que o terapeuta tenha formação médica ou psicológica.
Para quem não acredita na abordagem, Flávio dá o seu recado: “Somando-se ao meio ambiente onde vivemos e fomos criados, nossa educação e formação pessoal, a reencarnação é a mudança de paradigma que vai nortear os tratamentos de saúde do século XXI”, finaliza.