Esses dias uma conhecida perdeu o companheiro de forma inesperada e o que a deixou mais chateada conforme me contou, foi não ter agradecido mais, todos os dias, todas as coisas que deveria quando ele ainda estava vivo.
Temos muita dificuldade em viver as coisas da forma como vão acontecendo, passamos a maior parte do tempo projetando de que maneira poderia ser diferente desta, sem deixar que o tempo se encarregue da possível ordem ou caos. Queremos controlar tudo, para nos sentirmos seguros, porém esta vida não é um jogo para amadores.
Muitas vezes perdemos a oportunidade de viver grandes encontros porque passamos o tempo todo buscando um compromisso que congele os sentimentos e que às vezes, ao final, vai redundar até em separação...
As relações não são cartões de visita para que mostremos aos outros como estamos bem acompanhados, como estamos podendo, como saímos bem na foto. Relações são parte de momentos delicados onde existe um encontro entre duas pessoas simplesmente, duradouro ou não.
Se em nossa ansiedade não dermos aos encontros a oportunidade e o espaço para que aconteçam, não vamos sequer saber se poderiam algum dia vir a ser relacionamentos.
Tornamos nossos encontros em uma demonstração de padrões adquiridos através de uma percepção equivocada. Vemos alguém e imediatamente achamos necessário fazer um julgamento do que vemos, achando que uma pessoa é aquilo que veste ou o perfume que usa ou formalidades com as quais entabula uma conversação inicial. Aí começa nossa pré-seleção; os que vão ficar e os que serão eliminados num pequeno Big Brother pessoal; na verdade uma abordagem limitada não somente em função daqueles que estamos escolhendo, mas principalmente daquilo a que nos confinamos, à nossa percepção imediata e superficial.
Se estamos em busca de emprego, por exemplo, achamos injusto sofrer uma pré-seleção à partir de um primeiro contato no entanto, ao tratarmos de inter-relacionamento que vão além do profissional, achamos a abordagem justa. Nossos pesos e medidas vão sempre atrelados à nossa vontade do momento. O tempo inteiro estamos em busca do príncipe encantado, da cara metade, da mulher dos sonhos, mas é quase impossível percebe-los se estiverem próximos, porque já temos uma série de pré-requisitos que devem preencher, não existe espaço para que alguma coisa nova aconteça, e no entanto, aquilo que já conhecemos também não se provou eficiente, então ficamos como?
Talvez sendo menos ansiosos em mostrar todas as coisas que podemos ou querendo que o outro apresente todas as suas credenciais, talvez deixando que o encontro aconteça depois dos momentos iniciais de nervosismo natural. Apreciando aquilo que está sendo dito, ao invés de usarmos imediatamente nossa tecla SAP,nossa tradução simultânea, ou seja: nossa interpretação do tipo: o que ele está querendo dizer,é..., quando ela age assim, é...eu conheço muito bem o fulano!...é neste lugar que se encontra o tédio, quando congelamos tudo porque queremos nos sentir seguros e matamos o frescor do momento espontâneo.
Eu me repito muito e vou de novo fazer a analogia do pássaro que canta melhor na natureza do que na gaiola, mesmo quando não tem alpiste de primeira nem água filtrada.
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